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  • Renan Alves

“Fui voyeur de uma festa de sexo virtual com 700 pessoas”

Natacha, editora de Sociedade da Marie Claire, relata como a quarentena a levou à sua primeira experiência assistindo, através da tela do computador, gente de toda orientação sexual e identidade de gênero transar, se masturbar, usar brinquedos eróticos, tirar a roupa e realizar fetiches. Ela reflete como aquelas horas numa sala de Zoom a fizeram sentir, como nunca antes, uma mistura de prazer e melancolia.

“A festa começa sábado 23h58, dizia o terceiro e-mail do remetente Senta daquele dia de quarentena, um sábado, 30 de maio. Semanas (acho) antes, me deparei com um post no Instagram da minha conta preferida de sacanagem, a @sentomesmo, organizadora do evento que convidava qualquer um – desde que antifascista e maior de 18 anos – a participar de uma “festa de putaria mas de respeito” e “com performances bafo, mostrando que pornografia não precisa ser escrota”. Confiei no perfil, de que gosto tanto, de primeira. Pensei ‘se há uma live erótica em que participaria nesta fase moribunda da minha vida sexual, esse live seria produzido por essa galera’.

Logo descobri que outra conta de que sou fã estava envolvida na festinha, a @novapanty, vulgo melhor sexshop da internet – aliás, único que conheço que prioriza a pegação lésbica e o prazer das mulheres. Enviei o link do evento para meia dúzia de amigas e pra um flerte, nascido e morrido [sic] na quarentena, dias depois da festinha. Das seis amigas convidadas, uma deu certeza de que me faria companhia, dizendo inclusive que deveríamos nos fantasiar como no Carnaval, e outra se empolgou o suficiente para esquecer que havia festa.

Pois sábado, já perto da meia noite, estava eu e eu mesma aguardando a websuruba começar. A amiga carnavalesca dormiu sem me avisar e ficou incomunicável horas antes da gente se arrumar juntas pro rolê, por FaceTime obviamente. Decidi por isso que vestiria na SDDS Sentar (esse era o nome do evento) a roupa de todos os sábados, domingos, segundas, terças…, um pijama quentinho e decente suficiente para receber um delivery caso precisasse de um vinho ou de um sorvete de cupuaçu.

Para participar da festa, sem custo algum, era preciso um cadastro que investigava suas preferências políticas (me fez lembrar que tudo é sobre sexo, exceto sexo, que é sobre poder), e que depois te dava orientações sobre o que podia e não podia acontecer na web conferência. Era permitido quase tudo em relação à putaria. Transar ao vivo, “sim, por favor”, masturbação e vibradores à perder de vista, nudez, fetiches e performances. Era liberado mostrar o rosto e era liberado esconder — chique, não?! Era inclusive liberado desligar a câmera e ficar apenas de voyeur, assistindo o deleite alheio. Admito que diante do abandono das minhas companhias, essa foi minha ideia.

Entrei na sala de Zoom – a maior em que já estive, com pico de 700 pessoas online – com a tela preta e a câmera completamente desligada. Havia outros envergonhados como eu, mas éramos uma minoria – ao menos por volta da meia noite, quando a coisa estava no começo. Ah, os microfones de todos estavam desligados, exceto o da DJ, que durante o tempo em que fiquei na sala tocou uma nouvelle vague eletrônica, ou algo do gênero. Passados 10 minutos de observação, achei justo (?) ligar a câmera. Assim que o fiz, recebi a ligação do flerte que tinha convidado. Ele queria saber se eu ia entrar na “sala da putaria”. Respondi que estava lá, “sem fantasia ou maquiagem, sem máscara, com o pijama habitual”, e sugeri que a gente fizesse companhia virtual um pro outro através de uma video chamada pelo telefone enquanto assistíamos a festa pelo computador. Fechado!

Ele, diferente de mim, não quis ligar a câmera na sala. Então apenas eu via, através do celular, suas reações às 700 telas mostradas no Zoom. O homem ficou, claro, assombrado. Como pode, não?! Certamente assistiu,do auge de seus 30 e poucos anos, centenas de vezes mais pornografia do que eu. Mas ali, diante de uma série de live actions de sexo, ruborizou as bochechas e começou a gaguejar qualquer coisa ininteligível enquanto bebia Campari com água com gás.

Bem, ficamos na sala por um pouco mais de uma hora. No começo, a gente comentava uma tela ou outra. Tentava prever os movimentos de um casal, torcia para que uma garota tirasse o sutiã, aplaudia a siririca perfeita de uma outra e buscávamos conhecidos no meio daquela considerável multidão. Por um instante achei ter visto um garoto em um leito de hospital.

Nessas horas, mais do que em reuniões virtuais de trabalho, dá pra entender a importância de uma banda larga decente. Ganharam minha atenção as telas com melhor resolução, não as mais pervertidas. Lembro especialmente de uma garota de cabelos castanhos bastante volumosos na altura da cintura, vestida apenas com uma calcinha branca. Ela deixava o corpo quase que todo escondido atrás do cabelo e se masturbava deitada no chão. Apontei a câmera do meu celular para a tela dela e mostrei pro meu acompanhante. Ele notou as axilas não depiladas dela e disse que “gosto, viu. Não estou dizendo que não”.

Verdade que me atentei a escrever este relato depois de ler o do Angelo Dias, publicado na Folha de S. Paulo no sábado, 27. Como assim não dividir com a internet o rolê mais inédito da minha quarentena? E mais: a SDDS Sentar não se limita a putaria pela putaria. Foi um espaço de redenção e gozo de muito corpo dissidente que não encontra lugar na pornografia hétero normativa compulsória.

Fui conversar com o criador da festa, também administrador da @sentomesmo. Me deparei com um homem cis médico, bissexual, negro e também designer. O mineiro Uno, de 24 anos, me contou que acompanhou o próprio evento da casa da avó materna, comendo mingau de aveia. O que confirmou minha crença de que todos nós, os 700 da suruba, estávamos em boas e sóbrias mãos. Uno ainda disse que a ideia da festa surgiu de experiências dele com outros encontros virtuais de tom liberal. Que participou de alguns durante a pandemia e se sentiu oprimido. “Eram salas frequentadas por [homens] gays padrão. A típica figura branca musculosa com roupa de couro. Um ambiente que naturalmente já seleciona, que tem um ar de julgamento.”

Lembram do garoto internado que pensei ter visto? Ele de fato estava na websuruba. “Dava pra ver nitidamente a bolsa de soro, a cama de hospital”, diz o organizador. Dos participantes mais inusitados, Uno destaca o sujeito acamado e um casal de “50/60 anos” que mandou mensagem no perfil da @sentomesmo no dia seguinte. “Eles agradeceram porque sempre quiseram ter experiência de serem vistos transando e puderam realizar isso na festa.”

Por fim, Uno me contou que o evento foi até às 4 da manhã, teve 1200 inscritos, e que houve after depois, combinado no chat da sala e realizado em alguma outra sala que Uno não soube dizer. Quem me conhece sabe que odeio perder afters. Esse, em especial, me deu mais FoMO que o normal. Como disse aqui, abandonei a festa uma hora e meia depois de ter entrado. Em uma certa altura do meu primeiro voyeurismo, senti tesão. Não sei exatamente qual foi o gatilho da coisa – talvez um casal hétero que se comia ininterruptamente numa luz perfeita – mas cheguei ao ponto de precisar sair da festa e ficar apenas no meu rolê particular, o FaceTime com o flerte acompanhante, porque né, assim eu conseguiria dar conta de matar o tesão, pensei.

Mal sabia eu que ali, só entre nós dois, o tesão se misturaria a uma certa melancolia de minha parte. Entendi que o sexo virtual não me deixaria feliz naquela noite como havia deixado em outras. Eu já estava no meu dia oitenta e alguma coisa de isolamento e, desconectada da websuruba, tive o ímpeto estranho de pensar no tempo perdido. Em vez de seguir o fluxo da festa no meu chat privado, entristeci. Culpo todas as variáveis capazes de acometer uma mulher solteira confinada com o cachorro e mais ninguém por meses na maior hecatombe que assola a sua geração. E culpo uma TPM desavisada.

Eu e meu flerte acabamos mudando de assunto pra falar dos protestos antirracistas que aconteciam nos EUA naquela madrugada. Detalhe que foi zero difícil de convencê-lo a mudar a página. Ele foi dormir lá pelas 5h e eu tentei entrar na festa de novo, já encerrada. Assisti ao nascer do dia da janela do quarto. Fiquei estranha a manhã toda e só fui desligar da ideia horrível de “nunca mais terei vida sexual de verdade de novo” depois de um cochilo pós almoço. No mais, aguardo outra edição da SDDS Sentar. Uno disse que vai rolar, mas com outro nome e proposta um pouco diferente. Da próxima vez, pretendo me segurar no rolê até a última câmera apagar. Meu erro foi ter ficado offline.”

#amor #sexo

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